Edição Quinta, 21 de Maio de 2026

De freiras a casadas: ‘Deus foi nosso cupido

Francília Costa e Luiza Silvério se conheceram em um convento e, no começo, não foram com a cara uma da outra. Luiza lembra com bom humor da vez em que...

Francília Costa e Luiza Silvério se conheceram em um convento e, no começo, não foram com a cara uma da outra. Luiza lembra com bom humor da vez em que viu Fran pela primeira vez. “Caramba, que freirinha metida, que freirinha nojenta!”, diz à BBC News Brasil, aos risos. O sentimento de antipatia foi mútuo. “Sabe quando você não vai com a cara da pessoa? Tipo, sem motivo algum?”, diz Fran. “E eu pensando a mesma coisa dela. Gente, como que uma menina é tão metida como essa?”

Ambas entraram no convento por volta dos 20 anos por motivos parecidos. Luiza conta que sentia um “vazio” na sua adolescência em Minas Gerais e um chamado para cumprir uma missão. Fran foi criada por avós muito religiosos no interior do Piauí e também sentia que tinha uma missão religiosa na vida. Com o tempo, a antipatia mútua passou, e nasceu uma amizade entre as duas. “A gente entrou no convento com um propósito e esse propósito era servir a Deus”, diz Luiza.

Após alguns anos, e por motivos pessoais distintos, relacionados à saúde mental, tanto Luiza quanto Fran acabaram abandonando a vida religiosa. Luiza perdeu a avó materna e começou a enfrentar episódios intensos de ansiedade, que resultaram em um diagnóstico de depressão. Com o tratamento, ela entendeu que precisava cuidar de si e tomou a decisão de deixar a vida religiosa. Fran percorreu um caminho parecido. Durante a pandemia de covid, ela foi diagnosticada com síndrome do pânico. Como parte do tratamento, passou a se questionar sobre sua rotina no convento. “A vida religiosa é uma vida muito linda, mas você precisa ter saúde física e mental”, diz.

Fran tinha pânico só de pensar em sair do convento. Foi em conversas com Luiza que ela criou coragem para dar o passo definitivo. Logo as duas se viram com diversos problemas práticos. Fran precisou comprar roupas novas para poder sair do convento. “Você não sabe se vai conseguir fazer uma faculdade ou se vai conseguir arrumar um emprego, porque é difícil”, diz Luiza. O maior dos problemas financeiros era pagar aluguel. Por isso, resolveram dividir um apartamento, ainda como amigas — e foi nessa época que a amizade acabou virando amor.

Foi Fran quem tomou a iniciativa. Ela decidiu abrir o coração para Luiza depois de assistir a uma comédia romântica em que os protagonistas começam se odiando, e depois se apaixonam. O sentimento entre as duas era mútuo, e a amizade virou namoro, que virou casamento. Ambas seguem sendo católicas muito praticantes e dizem que o senso de missão que fez elas entrarem para o convento no passado agora segue em outro lugar: nas redes sociais. Elas compartilham seu cotidiano e os detalhes dessa trajetória incomum. Além de criadoras de conteúdo no Instagram, hoje as duas são microempreendedoras.

Há uma interpretação comum sobre a história delas que Luiza faz questão de corrigir — a de que a saída do convento foi a única forma de viver uma sexualidade oprimida. “Na época a gente estava focada na questão de servir a Deus”, diz. Antes de entrar para a vida missionária, ambas se enxergavam como bissexuais — e isso não influenciou a decisão de entrada. “Eu não queria me relacionar com ninguém. Eu queria realmente viver o celibato”, diz Luiza. Mais tarde, quando foram morar juntas e descobriram o sentimento amoroso uma pela outra, os dilemas foram de ordem religiosa. A resposta, diz Luiza, veio aos poucos.

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