Notícias

Partidos criam filtros contra candidatos ligados ao crime

3 min de leitura
Partidos criam filtros contra candidatos ligados ao crime
lacracao urnas eletronicas mcamgo abr 210920221818 11

Partidos políticos começaram a criar, em junho, regras para evitar que pessoas ligadas a facções e milícias se candidatem nas eleições deste ano. A medida foi tomada de última hora, após pressão do Ministério Público.

Apesar de adotarem as normas, dirigentes de algumas siglas afirmam, em caráter reservado, que a cobrança é inócua e tenta transferir para os partidos funções que seriam dos órgãos de fiscalização.

As novas regras incluem a análise da documentação apresentada por quem deseja concorrer e a exigência de assinatura de um termo em que o pré-candidato declara não ter vínculo com grupos criminosos.

No fim de junho, o Ministério Público Eleitoral (MPE) enviou uma recomendação aos partidos cobrando providências para evitar a infiltração do crime organizado na política. O órgão alertou que a Justiça Eleitoral poderia ser acionada em caso de “dolo e desídia deliberada”.

O texto sugere, por exemplo, que os partidos adotem medidas para conhecer o histórico criminal dos filiados e criem comissões de sindicância ética. A recomendação pegou as legendas de surpresa, e as direções tiveram que se mobilizar para atender, ao menos em parte, à proposta.

Um presidente de partido com grande bancada na Câmara, que pediu anonimato, demonstrou irritação com a cobrança, especialmente pela ameaça de punição. A equipe jurídica dessa legenda avalia que os dirigentes não podem ser sancionados por descumprimento.

Um dos pontos mais questionados é a determinação para que os partidos façam análise patrimonial dos pré-candidatos, com o objetivo de identificar indícios de financiamento por fontes ilícitas. O dirigente ouvido pela reportagem argumentou que as legendas não têm condições de investigar a vida pregressa dos candidatos e poderiam ser processadas por quem for barrado.

Carlos Massarollo, presidente do Mobiliza, afirmou que os partidos não têm os meios de investigação que têm as polícias e o Ministério Público. Já Rui Pimenta, presidente do PCO, escreveu em artigo que a recomendação é “praticamente uma ordem”, mas que não faz sentido o partido desconfiar de um cidadão para tirá-lo da eleição.

As orientações foram enviadas aos procuradores regionais eleitorais, que as repassam aos diretórios estaduais. O MPE cobra que as cúpulas partidárias informem quais medidas serão aplicadas já neste pleito.

Antes do documento, apenas o MDB, entre os oito maiores partidos da Câmara, havia oficializado uma norma para coibir a filiação de membros de organizações criminosas, válida para 2026.

A reportagem procurou as 30 legendas registradas no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para saber quais ações foram tomadas. O PT e o PL nacional não responderam. O diretório do PL no Distrito Federal, porém, aprovou uma resolução que cria comissão de integridade e ética partidária, com obrigação de informar patrimônio, certidões criminais e declaração de idoneidade.

O Republicanos aprovou resolução nacional que prevê a assinatura de declaração de “ausência de vínculo com organização paramilitar ou grupo criminoso”. O diretório do União Brasil no DF também aprovou uma resolução.

O Cidadania afirmou ao MPE que os documentos dos candidatos são enviados à Justiça Eleitoral no registro das candidaturas e que a análise é feita pelos TREs e pelo TSE. O partido disse ainda que tem comissões de ética, mas lembrou que o STF proíbe a expulsão sumária de associados.

PSDB, PDT, PSB e Novo afirmaram que ainda não tinham conhecimento da recomendação. O Podemos declarou que vai cumprir as determinações. O PSDB disse que orientou seus diretórios a adotarem as providências com base em informações de acesso público.

O Novo informou que seus pré-candidatos passam por verificação de antecedentes feita por empresa especializada. O Missão disse que já respondeu à Procuradoria, com previsão de expulsão de filiados com “fundadas suspeitas”. O PSTU afirmou que os pré-candidatos são pessoas conhecidas da direção partidária. PV, UP e PC do B também afirmaram que cumprem as regras ou têm mecanismos de prevenção.

Nilson Tales Guimarães
Nilson Tales Guimarães

Formado em Engenharia de Alimentos pela UEFS, Nilson Tales trabalhou durante 25 anos na indústria de alimentos, mais especificamente em laticínios. Depois de 30…