Parada LGBT+ expõe distância da direita e contrasta com Marcha
A deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP) participou da 30ª Parada LGBT+ de São Paulo neste domingo (7). Vestida com um traje de odalisca, usando um vestido transparente de tule preto, ela estava no alto de um trio elétrico na avenida Paulista. Enquanto posava para fotos, o público gritava “Erika, presidenta”. Ela foi a figura política mais esperada pelos presentes.
“O Brasil é um país que quer nos ver pelas costas, mas ocupamos as ruas com garra e perseverança”, disse Hilton. “A maior vitória da classe trabalhadora brasileira está nas mãos de uma travesti preta.” A deputada também apresentou a proposta do fim da escala 6×1, que já foi aprovada na Câmara dos Deputados. Em seguida, cobrou o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), pela votação da matéria. O público reagiu com gritos de “Fora, Alcolumbre”.
A recepção a Hilton contrastou com a postura da direita, que se distanciou da Parada. Três dias antes, políticos de direita compareceram à Marcha para Jesus. Estiveram no evento religioso o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), o prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB-SP), e o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos). O advogado-geral da União, Jorge Messias, também foi à Marcha, mas ficou isolado no trio elétrico principal.
Como nos últimos anos, o prefeito e o governador não foram à Parada. A assessoria de Tarcísio não respondeu aos contatos. Já a assessoria de Nunes disse que ele estava inaugurando o Parque Verde da Mooca Vereador José Índio, na zona leste.
O diretor da Parada LGBT+, Matheus Emílio, 30, afirmou que o evento está sempre aberto a representantes dos poderes Executivo e Legislativo, sem restrições ideológicas. Ele lamentou a ausência de Tarcísio e Nunes, destacando que a festa é um marco do calendário cultural da capital. “O contraste com a Marcha para Jesus mostra que cidadãos LGBT+ ainda são tratados como cidadãos de segunda classe”, disse Emílio.
Nem sempre foi assim. No passado, políticos de direita iam à Parada. O tucano Bruno Covas (1980-2021), de quem Nunes foi vice, esteve na Paulista em três edições. Em 2018, ele foi vaiado na fala de abertura. O ex-governador Geraldo Alckmin também se dirigia à comunidade LGBT+.
Segundo Emílio, a ascensão do bolsonarismo reduziu o respeito às diferenças. “A questão é atrapalhar a Parada. O conservadorismo e a extrema direita tentam tirar direitos das pessoas”, afirmou. Neste domingo, o vereador Lucas Pavanato (PL) foi à Paulista e causou confusão ao provocar os presentes, gravando vídeos para as redes sociais. Pavanato apoia um projeto do vereador Rubino Nunes (União Brasil) que quer transferir a Parada para espaços fechados e proibir a presença de crianças.
A deputada federal Sâmia Bomfim (PSOL-SP) criticou a postura desses políticos. “O Brasil é muito maior que meia dúzia de caras de pau que estão no Congresso Nacional”, disse. Outros discursos reforçaram o apoio ao fim da escala 6×1. Também passaram pelo trio o deputado estadual Eduardo Suplicy (PT-SP), que cantou “Blowin’ in the Wind”, de Bob Dylan, o deputado estadual Guilherme Cortez (PSOL-SP) e a ministra dos Direitos Humanos, Janine Mello.
O orçamento foi um ponto sensível neste ano. Houve redução de patrocínio, o que resultou em uma festa menos opulenta, com seis trios elétricos a menos. Nunes também reduziu o investimento da prefeitura, de R$ 6 milhões para R$ 5,5 milhões.
Um grupo ligado ao PCdoB usou máscaras de Tarcísio, Nunes, Flávio, do presidente dos EUA Donald Trump e do ex-banqueiro Daniel Vorcaro. Um cartaz dizia “familícia bolsomaster”, em referência ao caso do Banco Master.
O policial militar Alexandre Dias, 39, circulava pela Paulista com um cartaz afirmando que os partidos PL, MDB, União Brasil, PSD e Novo não se importam com a comunidade LGBT+. “É preocupante não termos uma presença forte de políticos aqui na Parada, e a presença maciça de políticos na Marcha Para Jesus é assustadora”, disse. “Quando a religião entra tão diretamente na política, isso é preocupante.”