Notícias

Flávio critica Moraes por busca contra fonte de jornalista

4 min de leitura
Flávio critica Moraes por busca contra fonte de jornalista
brazil election campaign

O senador Flávio Bolsonaro criticou nesta terça-feira (11) a decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), que autorizou busca e apreensão contra o ex-secretário de Segurança Pública do Maranhão Raimundo Cutrim. Cutrim é apontado como fonte do jornalista Luís Pablo em reportagens sobre o suposto uso irregular de veículos oficiais envolvendo o ministro Flávio Dino.

Em encontro com jornalistas em Brasília, Flávio classificou o sigilo da fonte como “sagrado” e pediu uma reação conjunta dos profissionais de imprensa contra o que chamou de “abuso, ilegalidade e arbitrariedade”. “Eu acho que tem que haver um momento de unidade da própria imprensa contra esse tipo aí de abuso, de ilegalidade, de arbitrariedade”, declarou o senador e candidato à Presidência da República.

Flávio também questionou a segurança das fontes que repassam informações a jornalistas, caso ministros do STF possam determinar medidas de busca e apreensão relacionadas ao trabalho de reportagem. “Em nada justifica um ministro do Supremo determinar a busca e a apreensão numa fonte de um jornalista que fazia matérias denunciando mau uso por parte do aparato, equipamentos públicos ali por parte do ministro Flávio Dino”, afirmou.

A operação contra Cutrim foi solicitada pela Polícia Federal e teve parecer favorável da Procuradoria-Geral da República antes de ser autorizada por Moraes. A investigação conduzida por Moraes aponta que Cutrim teria fornecido informações publicadas no ano passado sobre o uso de veículos oficiais por Dino no Maranhão. A identificação de Cutrim como fonte ocorreu após a extração de mensagens do celular do jornalista Luís Pablo, que já havia sido alvo de busca e apreensão ordenada por Moraes em março.

O advogado José Berilo de Freitas Leite, que defende Cutrim, afirmou que o sigilo da fonte é garantido pela Constituição Federal quando necessário para o exercício da atividade profissional. “A defesa registra sua preocupação técnica quanto à exposição de alguém na condição de fonte jornalística, garantia diretamente vinculada ao sigilo da fonte assegurado pelo art. 5º, inciso XIV, da Constituição Federal, e ao pleno exercício da liberdade de imprensa, valores que devem ser preservados independentemente do desfecho das apurações em curso”, disse.

O advogado também criticou a atuação de Moraes e Dino nas investigações. “A decisão do ministro Moraes abre um precedente extremamente perigoso e ilegal, ferindo, de morte, o sagrado direito de preservação da fonte para o jornalismo. Reputo como uma forma vil de intimidar toda a imprensa nacional”, declarou. Ele ainda levantou questionamentos sobre a imparcialidade de Dino, que investiga Cutrim por suposta coação e obstrução de Justiça. “Como pode o ministro Flávio Dino ser uma suposta vítima de ‘perseguição’ do dr. Cutrim num processo e ser subscritor de um mandado de prisão contra o mesmo dr. Cutrim em outro processo?”, questionou.

Em nota conjunta, a Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert), a Associação Nacional de Editores de Revistas (Aner) e a Associação Nacional de Jornais (ANJ) manifestaram “profunda preocupação” com a decisão de Moraes. “Ações judiciais que quebram o sigilo da fonte não têm amparo constitucional e abrem precedentes que ameaçam a liberdade de imprensa, amparada pela Constituição de 1988”, afirmaram as entidades.

“Casos de questionamentos a reportagens devem ser tratados dentro da lei, que prevê direito de resposta e indenizações. A violação do sigilo do profissional e de suas fontes leva a intimidações contra a imprensa que não condizem com o Estado Democrático de Direito e o livre exercício do jornalismo”, completaram.

O advogado André Marsiglia, especialista em liberdade de expressão, avaliou que o episódio representa um risco para a cobertura jornalística. “O recado de Moraes está dado: quem continuar servindo de fonte para Malu Gaspar, Lauro Jardim etc. sobre o que ministros fazem de errado estará com a cabeça a prêmio. Como Moraes tem pudores de censurar diretamente a grande imprensa, vai secar suas fontes pelo medo”, publicou.

O ex-juiz eleitoral e advogado Adriano Soares da Costa afirmou que o STF “vem escalando na transformação do Brasil em um Estado policial”. “É óbvio que a busca e apreensão contra a fonte de jornalistas apenas é possível por meio de pesca probatória operada contra o jornalismo. Não há outro meio de se chegar a uma fonte”, publicou.

O senador Rogério Marinho (PL), coordenador da campanha de Flávio e líder da oposição no Senado, também criticou a decisão. “É um grave precedente contra a liberdade de imprensa. O sigilo da fonte é uma garantia constitucional, historicamente essencial ao jornalismo investigativo. Sem essa proteção, fontes podem deixar de denunciar corrupção, abusos e irregularidades”, afirmou.

Sobre o conflito com Cutrim, o ministro Flávio Dino nega o uso irregular de veículos oficiais no Maranhão e diz ser alvo de monitoramento “clandestino e ilegal” no estado. “Foram produzidas clandestinamente imagens do ministro e da sua família, inclusive filhos que são crianças, abrangendo seus itinerários habituais e normais”, diz nota divulgada pela assessoria. Dino é relator da investigação contra Cutrim no STF e, em julho, determinou a prisão domiciliar de Cutrim e seu afastamento do cargo de secretário de Assuntos Legislativos do Maranhão.

O STF e Alexandre de Moraes não se manifestaram sobre as críticas feitas pela defesa de Cutrim e por entidades da imprensa, políticos e críticos do tribunal.

Nilson Tales Guimarães
Nilson Tales Guimarães

Formado em Engenharia de Alimentos pela UEFS, Nilson Tales trabalhou durante 25 anos na indústria de alimentos, mais especificamente em laticínios. Depois de 30…