Audiência nos EUA defende Pix e critica tarifas de Trump
Brasileiros e americanos contestaram, em audiência nos Estados Unidos, as críticas do governo Donald Trump ao sistema de pagamentos Pix. O depoimento ocorreu nesta segunda-feira (6) durante uma audiência pública do USTR (Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos), que investiga o Brasil com base na Seção 301 da Lei de Comércio dos EUA.
O processo já resultou na recomendação de uma tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros. Além do Pix, a investigação questiona políticas brasileiras relacionadas a desmatamento, etanol, propriedade intelectual e comércio digital.
O especialista brasileiro em meios de pagamento Vinícius Nunes Pinto abriu seu depoimento com um exemplo: ao abrir a caixa de correio em sua casa na Flórida, encontrou um cheque de um centavo, cujo selo para envio custou 74 centavos. Para ele, o caso ilustra o problema que sistemas de pagamento instantâneo buscam resolver: processos caros e lentos para movimentar pequenas quantias.
Nenhum dos participantes do primeiro dia de audiências apoiou a tese de que o Pix prejudica empresas americanas. Melinda St. Louis, da organização americana de defesa do consumidor Public Citizen, afirmou que o sistema foi criado para aumentar a inclusão financeira e promover a concorrência. Segundo ela, o Pix é uma infraestrutura pública digital, comparável à rede viária ou à moeda emitida pelo Estado, e não uma empresa privada que concorre com companhias dos EUA. Ela também destacou que empresas americanas, como o Google, continuam autorizadas a operar no Brasil e são as maiores iniciadoras de transações no sistema.
Pinto, que participou da implementação do Pix e hoje trabalha com tecnologia nos Estados Unidos, disse que o sistema não foi criado para “escolher vencedores”, mas para funcionar como um “trilho” para pagamentos. Ele afirmou que a digitalização do mercado brasileiro permitiu que milhões de consumidores usassem serviços de empresas americanas de streaming, comércio eletrônico, transporte e tecnologia. “O Pix é um trilho, uma infraestrutura. Nós não julgamos uma estrada por quem cobra o pedágio, mas pelo que ela permite que uma economia faça”, declarou.
O especialista também defendeu maior cooperação entre os dois países na área de pagamentos digitais e sugeriu uma futura integração entre o Pix e o FedNow, sistema de pagamentos instantâneos do Federal Reserve. Na visão dele, a interoperabilidade entre os sistemas reduziria custos e facilitaria transações comerciais entre empresas americanas e brasileiras.
O economista Gustavo Pessoa contestou o uso do Pix como justificativa para uma disputa comercial. Para ele, o fato de um Banco Central operar um sistema de pagamentos pode gerar debates sobre governança, mas não justifica a adoção de tarifas. Pessoa propôs que Brasil e Estados Unidos estabeleçam critérios comuns para avaliar sistemas públicos de pagamento e aprofundem o diálogo sobre infraestrutura financeira.
Ao encerrar seu depoimento, Pinto voltou ao exemplo do cheque de um centavo. Ele sugeriu que, em vez de tarifas, o caminho deveria ser a cooperação entre os sistemas de pagamento instantâneo dos dois países. “Imagine os trilhos conectados, permitindo que uma empresa em Ohio receba instantaneamente de São Paulo”, disse. As audiências continuam nesta terça-feira (7), com a participação esperada do senador e pré-candidato Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que prometeu “defender o Pix”.